Lisboa, 20 de setembro de 2025
Minha querida,
Um dia destes andei de barco em Setúbal; entre conversas, taças de vinho, homens enjoados e cenouras bebês, uma mulher perguntou se eu era francesa, e o que eu fazia para viver.
Respondi-lhe:
- Sou artista. Luso-brasileira.
- Do you have an atelier?
- Não, trabalho em casa - respondi, seguindo-se outra pergunta do âmbito “ter”:
- Do you have a gallerist?
“Não”. Pratico maioritariamente escrita criativa, som experimental e cinema. Uma vez que passei cinco anos numa prestigiada instituição portuguesa de Belas Artes, digo com pesar que é um ambiente que não me renovou espiritual nem criativamente. Onde reina o ego, eu não quero estar.
Mas essa mulher - cujo nome não me recordo, mas recordo as suas feições de Médio Oriente misturadas aos seus modos britânicos, como ela mesma me contou - foi a mais simpática comigo em todo a população provisória do barco, embora suas palavras tenham sabor a sua classe social; outra nómada digital radicada em Lisboa há um par de anos. A arte foi a nossa terra comum, uma vez que ela costuma comprar obras para a coleção da sua família de magnatas. Conversamos por muito tempo, durante o qual vi alguns golfinhos a saltar na água. As amigas dela passavam por nós, uma vez ou outra, e eu pude perceber-lhes um misto de curiosidade e malícia no olhar, porque eu não pareço alguém que pertenceria a esse grupo de amigos. E não pertenço, de fato: fui convidada por um dos nômades europeus, mas ele estava demasiado ocupado com sua náusea marítima para ter lábia para conversar. Sou pelo menos uma década mais jovem que todos eles, possuo outra pele e outra classe social. Emigrei do Brasil há quase uma década e vivo cá, embora saiba que poderia fazer mais dinheiro noutro país europeu. Mas eu amo esse país que não me ama de volta e não finjo - nunca ganhei nada com isso. Não estou a tentar agradar, embora fique genuinamente feliz quando o faça. Tenho pavor a presunção e peço desculpas se assim exigir a norma social, mas preciso que saibam: eu sou tudo o que tenho. Não estou em posição de poder abdicar de mim.
Noutro dia uma amiga ironizou: “nisto de vidas passadas, todo mundo sempre acha que foi uma pessoa da nobreza, uma amazona, uma fada… nunca uma pedra”. Indaguei-lhe se, numa perspectiva espiritual, seria possível ter sido pedra, para depois virar uma mulher encontrada na terceira dimensão. Suponho que seja necessário estar mesmo muito evoluída para ser uma pedra. E se sou hoje uma mulher, talvez seja porque tenha muitas coisas para aprender e algumas para ensinar, lutas das minhas antepassadas para honrar, dores das quais elas padeceram sem poder ser quem eram, para que hoje eu possa ser quem sou, embora todos os dias isso pareça uma tarefa custosa. Sobre ser pedra, ainda não sei a resposta - mas tenho vindo a descobrir que não é para criar respostas que urgem as perguntas. É para expressar a vulnerabilidade do nosso não-saber existencial, e seguir.
Sigo a caminhar e a ver passar os dias de sol em Lisboa. Lotada. Loteada. Lavrada para assumir o primeiro lugar no pódio de destino europeu de referência. Estamos todos aqui, mas já ninguém me fala em português nos cafés e lojas, e isso frustra-me. Não me entenda mal: adoro a diversidade alfacinha. Eu mesma não nasci cá e sou invariavelmente apaixonada por ela. Mas sinto falta da minha língua-mãe, tão bem colonizada foi na minha terra originária, que sigo-a como a única língua no (meu) mundo, e por isso insisto todos os dias neste país, e tenho outro emprego que nada tem a ver com a escrita ou a arte. Rebites de rendas fatais e capitalismo tardio. Sou apenas uma mulher, e escrevo. Amo mulheres e homens, e resisto, embora claramente o meu género tenha sido mais digno de amor do que aquele ao lado, o expressivo, que fala muito, pouco pensa e nada escreve.
Escrever-te, minha querida, faz-me lembrar daquele livro que comecei a escrever aos anos e até hoje não editei, não sei se por autossabotagem, por curtos intervalos entre tarefas energúmenas a tempo-inteiro, ou por achar que as editoras e o público em geral não me querem, só leem autores brancos e carecas, ou escritores japoneses quando querem dizer que são alternas. Não leem Audre Lorde e nem Carolina Maria de Jesus e não entendem a minha urgência na escrita repetitiva, rítmica, obcecada; aquela que transborda pelos meus poros. Escrevo porque respiro; naturalmente, como uma dança - não uma lei - essas palavras saem de mim como fluídos cor carmim precipitam-se do meu corpo e não posso evitá-las. Desta vez, tudo começou porque no outro dia passei brevemente pelos Anjos, dentro do carro, e vi um cartaz colado num edifício há muito abandonado que me fez escrever-te tudo o que penso e não disse a ninguém - nem aos meus amigos, nem à minha psicóloga, nem à minha amada máquina de escrever. Porque oralmente a história é outra.
E, por isso, penso como estás, minha querida, e como vai a tua vida de caixa de supermercado em Bucareste? Sei que deixaste o nosso país de oliveiras com o intuito de ser uma forasteira noutro sítio que não o teu - e penso na tua dor, mal recebida no teu próprio país, nas clínicas de análises em que atendias senhorinhas que indagavam como é que podias ter nascido cá, no doce e árido Alentejo, uma vez que a tua cor de pele é azul. Brincadeira. É castanha, como os frutos secos que antecedem a mais fria estação. É castanha, como a minha. Eu não nasci aqui, mas pressinto que nós duas aprendemos a lidar com o racismo desde cedo, em lados opostos do Atlântico. Pergunto-me de que cor terei sido até esse parágrafo. Penso se sequer indagaram a minha pele. Penso se isso importa, e se as minhas palavras têm cor, gosto, textura de carapinha ou aroma a protetor solar e ylang ylang.
Ainda lembro do dia em que te conheci, e talvez possas achar estranho que te escreva uma longa carta quando só tomamos dois ou três cafés juntas. Mas devo prosseguir, não só pelos motivos que antes escrevi, mas porque sinto que temos demasiado em comum para nos ignorarmos, e porque o teu olhar não me sai da cabeça. Naquele café dos Anjos, e depois, na loja de vinhos na Graça, onde tomamos deleitosas bebidas a conversar. Antes de você ir para Bucareste, naquela noite quente de quase-verão. Queria ter-te chamado para beber vinho em casa, mas não quis ser descortês ou inconveniente, e muito menos parecer um gajo.
Como sei que tens um passado no ballet clássico e na dança contemporânea, pergunto se irás atrás da tua paixão por aí, na Romênia? Só te vi dançar uma vez, mas o teu corpo move-se como se tivesse nascido única e exclusivamente para dançar, e digo-te isso da forma mais singela possível, pois tu pareces conhecer a coreografia antes mesmo dela surgir na cabeça de um músico ou coreógrafo. Creio que as companhias romenas teriam grande sorte em ter alguém como tu, uma bailarina portuguesa de pés efervescentes; caso seja essa a tua vontade.
Cá, em Lisboa, sigo a percorrer o meu sonho todos os dias. Espero que um dia fique mais fácil e mais fluido. Tenho pensado em deixar o meu emprego para ler tarot para as pessoas, e assim talvez possa começar uma nova era de trabalhadora autônoma e só ganhar a vida a fazer coisas que dialoguem com a minha alma. Recentemente trabalhei como assistente de realização numa série que vai estrear no fim do ano na nossa emissora nacional, e nunca antes fui tão feliz num trabalho. E trabalhei tanto, tanto, que num domingo às quatro e quarenta e cinco da tarde chorei de cansaço na sombra de um limoeiro. Fiz turnos de mais de doze horas em pé, a correr, na tempestade, a carregar atores em guarda-chuvas. Nem recebi por esse trabalho, porque a produtora disse que não tinha dinheiro para me pagar. Mas eu fiz com gosto e faria outra vez, porque fiz por amor. Eu amo fazer arte em suas diversas formas: no cinema, na arte da palavra, no som ou na escultura. Mas as oportunidades são poucas, espaçadas, precárias, mal ou frequentemente não remuneradas. Terminei a faculdade há três anos, serão quatro no próximo agosto. Na arte ganho muito menos do que na tecnologia, onde sou contratada num escritório na linha amarela do Metro de Lisboa. Mas na arte tenho um amor e um preenchimento do meu todo que nunca encontrei em escritório nenhum, por mais que receba para fazer um trabalho fácil e que me permite muito tempo livre para fazer arte - embora nunca pareça que é tempo suficiente. A arte exige todo um tempo de vida de forma integral, ela quer todos os meus dias, horas, minutos. Quando não estou a fazer arte, dedico vários minutos a pensar em ti. Desejo que sejas feliz e realizada em Bucareste, embora várias vezes me imagine perto de ti, num miradouro a olhar para um rio daí ou daqui, sob um sol fraco, as peles dos nossos braços enfileirados a tocarem-se de leve.
Às vezes penso se deveria emigrar outra vez. A política tem-nos sido instável por aqui, as casas estão cada vez mais caras, mofadas e escassas e a procura é enorme. A cultura só recebe uma minúscula porcentagem do orçamento estatal e os salários são equivalentemente minúsculos, dentro e fora da cultura. Mas o que me mantém aqui mais um dia, mais um ano, é o sol, os segredos guardados no Tejo ainda por descobrir, o suor no rosto deste povo pacato que eu respeito como se fosse o meu próprio povo e que é, em última instância. É esta língua idolatrada que não me sai das pontas dos dedos. É a minha família, que também vive aqui, embora do outro lado do país, no Norte, onde eu, antes deles, vivi, quando me mudei para este lado do Atlântico. É inteiramente este país e todos os países que cabem nesta pequenina faixa de terra. Esse país que eu amo e que por vezes até me ama de volta, depois que obtive a nacionalidade portuguesa herdada do meu pai - e isso foi tudo o que ele me deu.
Um dia cheguei ao mundo e pensei que uma ou duas pessoas iriam me amar, porque esse era o dever delas. Mas com o tempo aprendi que o amor apresenta-se em formas diversas, e, em seus caminhos tortuosos, a vida trouxe-me gente de vários cantos do mundo para amar. E isso têm mais valor para mim do que o amor obrigatório.
Para terminar de listar, cá tenho um teto, um gato preto, muitos livros, alguns baralhos de tarot e uma varanda ensolarada onde até vejo um bocadinho do Tejo e de Almada entre os telhados acobreados, cobertos de antenas de televisores de antes da era digital. Aqui acordo todos os dias, escrevo e persigo os meus sonhos de menina. Quando era pequenina, brincava de bonecas e queria ser adulta. Agora sou adulta, escrevo e corro, tenho muita vontade e pouco tempo. Desejo-te a melhor das vidas em Bucareste e torço para que me escrevas através dos tempos se assim te apetecer; mas que nunca me penejes, caso contrário. Passam os dias e as horas, mas o teu olhar não me sai da cabeça.
Se eu for i̶m̶e̶n̶s̶a intensa para você,
sinto muito.
Com saudade,
Eva